viernes, 6 de marzo de 2009

O Mata da foto

Na dúvida, prefiro ficar com a imagem generosa e simpática do único Mata contemporâneo que não cheguei a conhecer, mas que tratou de me mostrar a sua neta. É verdade que existe uma tendência a idealizar aqueles que deixaram a proximidade do nosso círculo de relacionamento. Estamos acostumados a estilizar para poder compreender, recortando sempre traços importantes tanto da personalidade como do comportamento dessas pessoas, reduzindo-os a parcas lembranças de conveniência. Assim mesmo, desconfio de que a impressão que carrego do velho Mata tem muito que ver com o que foi na realidade. Contador de profissão, de escassas pretensões pessoais, sempre foi descrito por sua própria família como um homem sério, trabalhador, atencioso e paciente com os netos, aos que costumava levar para longos e agradáveis passeios. Tolerante com uma esposa cheia de caprichos, acabou perdendo o emprego de uma vida inteira por culpa da sua honestidade, por não se deixar corromper, algo que ao que parece, sua própria família não chegou a compreender, nem perdoar. É possível que essas circunstâncias tenham sido determinantes na formação do perfil ambicioso e materialista do filho, ou seja, meu sogro, permanentemente atento às oportunidades para tirar proveito de algo ou de alguém.


A viúva, elegante e altiva, sempre me recebeu com carinho, cozinhando quitutes especiais, talento que a sua neta herdou e até aprimorou. Quando o marido morreu, já moravam há anos num quartinho no fundo da casa dos meus sogros e aí seguiu a senhora, depois de enviuvar, desde onde e com a cumplicidade do filho, brandia uma autoridade encoberta, para desespero de uma cada vez mais desmoralizada nora, que viu sua vontade minguar dentro da própria casa. Suponho que isso explica em parte seus métodos obscuros, frios e calculistas, próprios de quem padeceu a solidão em meio à multidão familiar.

Enquanto isso, a viúva do velho Mata projetava seus desejos de grandeza em direção ao seu eleito, o neto primogênito, a quem ela não descansaria sem ver convertido no respeitável Doutor Mata, como redenção aos anos em que, como faxineira do centro de saúde municipal, teve de suportar os intermináveis e orgulhosos desfiles de fardas brancas.

No hay comentarios: