domingo, 8 de marzo de 2009

Credo

Crer é uma possibilidade, pode ser uma opção ou, até mesmo, uma necessidade.

Lembro bem de um professor que nos disse uma vez, em classe: "não posso viver sem crer em algo, em alguém e por isso creio em Deus". Estávamos discutindo Nelson Rodrigues. Era o professor mais respeitado, austero e vocacional. Fantástico. Pensei naquilo durante anos, até o ponto de questionar meu já bastante consolidado ceticismo e aumentando consideravelmente a pressão, a chantagem a que nos tinha submetidos a igreja católica. Anos mais tarde, compreendi que todos tínhamos direito aos nossos erros, às nossas fraquezas e que delas também se compõe a nossa força. Lembro-me que isso fez parte do memorável processo de relaxamento da minha auto-exigência, com a que foi possível ampliar minha perspectiva.


Bem, mas isso agora não vem ao caso, que é a introdução aos Mata e sua relação com a crença. Comecemos pelos freqüentadores de missa. Na cidade dos Mata, a catedral fica estrategicamente no centro da praça principal, bem à vista dos vigilantes da moral e bons costumes. Lá é muito importante ser visto cumprindo religiosamente, como crentes ou como respeitáveis integrantes de uma sociedade implacável nas suas normas morais. Escrevo isso e penso no meu concunhado, profissional liberal de certo respeito, a tradição encarnada. Nem passa pela sua cabeça transgredir. Bom sujeito até, honesto e trabalhador e, por isso a maior vítima da mofa dos Mata. Tratam-no de idiota e de mesquinho o que, em se tratando do meu sogro, convenhamos, é como mínimo, paradoxal. O caso é que o meu quase parente em questão cumpre dominicalmente as obrigações religiosas, fazendo disso um compromisso familiar, outro dos aspectos que cuida com maior competência que o nosso comum sogro, cujas convicções ou, quem sabe, a falta delas, fizeram-no seguir, ao longo de sua vida, uma série de messias eventuais, aparentemente, numa tentativa desesperada de ser capaz de crer.



O mais notável foi uma espécie de curandeiro que, ao parecer, criara a versão "cardecista" provinciana e simplória. Contam os filhos que meus sogros - ambos - chegavam a desaparecer durante dias, semanas inclusive, investidos nos papéis de imediatos de guru. Naturalmente e como em outros tantos casos, este milagreiro também foi efêmero, a crença murchou, aquela onda passou e meu sogro teve que procurar outra desculpa para evadir-se das responsabilidades da paternidade. Nenhuma outra foi tão forte como esta, talvez pelo malogro ou pelas seqüelas que provocou, algumas por séria negligência e cujas conseqüências perduram. Eu mesmo cheguei a testemunhar o surgimento de uns quantos guias espirituais, fossem um híbrido de macrobiótica e rosa cruz ou certa ramificação templária, todos tinham em comum a falta de exigências de prática ou habilidade, bastava seguir dez ou doze dogmas, estar vazio de motivação, carente de interesses ou farto de responsabilidades.



Na cidade dos Mata, as atividades culturais escasseiam. Não faltam templos, salas de culto, grupos sectários de origem medieval, como se as pessoas precisassem de intermediários para relacionar-se, como se para se entenderem dois seres humanos, fosse necessário um ente tradutor. Talvez os deuses possam e devessem mesmo estar presentes na história da humanidade e, até quem sabe, para alguns possam trazer uma sensação de conforto à existência. O que talvez seja difícil de entender é que o culto a esses seres possa roubar o tempo do relacionamento entre seres humanos. Porque uma prática preestabelecida, baseada em dogmas, parece-me, peca de previsibilidade e deixa de permitir o assomo de milhares de matizes de que só são capazes os surpreendentes "pecadores" seres mortais.

1 comentario:

Anónimo dijo...

Cada vez tenho mais medo dessa "sua" família, de verdade que essa gente existe?