Meu sogro é loiro, os filhos dele, morenos, meu filho mais velho, loiro e o mais novo, moreno. Minha mãe, sofredora, meu pai, cabeça-fresca e eu, que fui um jovem preocupado, presa fácil da responsabilidade, faz alguns anos troquei a inseparável agenda por um bloquinho de anotações e decidi jogar o relógio no fundo da gaveta.
As metamorfoses a que a vida nos submete doem um bocado, contudo são um forte indício de que não somos um mero resultado de equações genéticas. Além disso, permitem certificar que somos capazes de tomar os caminhos mais surpreendentes e imprevisíveis, provável causa maior da emoção de viver, e paradoxalmente, a origem da agonia que nos provoca descobrir que tudo o que fizemos ou decidimos podia ter sido distinto, que podia ter-nos feito viver outra vida em lugar da que vivemos. Não se trata de começar a ser místico de repente ou atribuir ao destino o que não lhe é atribuível, mas de considerar o que é de verdade, conseqüência do livre alvedrio.
Como a decisão de ter outro filho, passados sete anos do nascimento do primeiro e como isso pode vir a ser determinante nas vidas deles e nas nossas. Ou como, cerca de uma década depois, nosso filho mais velho decide deixar nossa casa, afastando-se de toda possibilidade de seguir de perto as descobertas que o irmão tinha ainda por viver.
Visto daqui, desde o futuro, é fácil adivinhar o quanto cada um de nós teve a ver com essa decisão. Ele próprio, um convicto foragido das inconveniências, obcecado por uma alegria quase ditatorial que, mesmo sob epidermes regeneradas, costuma deixar as feridas abertas. Ou nós que, muito provavelmente, rejeitamos a enorme vantagem que a maior experiência nos proporcionava, inertes num mesmo patamar, desde onde ajudamos a reforçar um muro que insistíamos em golpear inutilmente, cada um desde seu lado. Intransigentes, negamo-nos a comprar a passagem de volta ao Brasil, bloqueando nossos já bastante contaminados canais de comunicação e permitindo que se abrissem outros, indesejáveis sobretudo naqueles momentos difíceis de discussões e confrontos.
Disso se valeu uma vez mais a matriarca dos Mata, especialista da rapinagem familiar. Armada do talão mais rápido do oeste não hesitou em apontar com seus cheques de alto calibre ao próprio neto, fazendo-o levitar, perseguindo o aroma do papel moeda, feito personagem de desenho animado. É possível que mesmo sem a ajuda da avó, o rapaz atordoado e sem rumo tivesse encontrado a forma de se afastar dos que naquele momento, representavam a necessidade de assumir responsabilidades, tão transcendentais como eminentes, mas sem dúvida aquela ponte elevadiça a Xanadú foi resolutiva ou ao menos, permitiu-lhe economizar uma complicada decisão.
Talvez, o passo dos anos pudessem ter corrigido rumos e compatibilizado gênios, algo que possivelmente nunca chegaremos a saber com certeza, tendo que nos conformar com os indícios. Se, então, a considerável diferença de idade não favoreceu a maior proximidade ou se o mais velho sentiu seu protagonismo ameaçado pela chegada do irmão, essas diferenças foram-se diluindo e eles, aproximando-se, apesar da distância de dez mil quilômetros. Sinto que não fomos capazes de protegê-los de mais essa desastrosa intervenção dos Mata. A mais dramática, que marcou o signo definitivo das nossas relações. Tampouco eu pude. Confesso que só o tempo permitiu recuperar-me do enorme impacto desse cruzado que me fez arquear, dobrar os joelhos e me manteve à beira do nocaute. Cheguei a agradecer o suposto presente de aniversário dado ao neto, a maçã envenenada que lhe roubou um futuro junto aos pais e ao irmão. Nossos destinos mudaram depois daquele dia. Nossas relações, também, algumas degradando-se até a completa extinção, enquanto outra saíram reforçadas, pela escassez. De fato, uma das maiores emoções que já vivi, e não foram poucas, foi o reencontro dos meus dois filhos depois de três anos. O mais velho veio passar o Natal conosco, sem avisar e fomos ao colégio do caçula que, nesses anos, tinha crescido muito, longe da vista do irmão e, agora era o mais alto dos dois. Quando se encontraram, atiraram-se literalmente, um em direção ao outro e fundiram-se num abraço impossível de apagar da memória e nele permaneceram durante muito tempo, chorando. Eu chorei. O velho bedel da escola, não se conteve e dissimulando sob um desajeitado sorriso, chorou. Emocionante e difícil de esquecer. Nem quero. Como tampouco quero esquecer quem fui, o que fiz, por que estou certo de que por muito que aparentemente tenha mudado, sigo caminhos que escolho graças aos critérios e seguindo as lições que um dia recebi da minha mãe, "la mamá", a verdadeira fundadora da saga.
Recentemente, cumpriram-se dez anos sem ela. Faz muita falta, aos filhos e aos netos. Foi-se com a capacidade física bastante limitada, mas intelectualmente ainda muito forte, já que dedicou boa parte do seu tempo à leitura, ao cinema e à música, não necessariamente aquela que se lhe atribuiria. Gostava das novidades, mas era seletiva. Tinha amigos jovens e muito poucos da sua idade. Em sua última lição, à distância, demonstrou-me como é possível amar sem pedir nada em troca, transformando-se na nossa principal incentivadora, apoiando os nossos projetos para que perseverássemos e nunca desanimássemos, mesmo que às custas do seu próprio sacrifício de não poder ter-nos tão próximos como ela desejaria. Tinha uma minoritária forma de ser honrada, mas destacava principalmente, sua coragem que nunca ostentava, mas que desembainhava e brandia ferozmente, nos momentos mais críticos. Insisto que era ainda muito cedo e que ela podia ainda viver muito, mas me pergunto até que ponto vale a pena viver de forma tão limitada.
Já meu pai, preferiu obviar totalmente a atividade intelectual e o mais perto que chegou da cultura foi durante as transmissões esportivas através da televisão. A atividade mental é equivalente à ginástica que dói ao mesmo tempo que fortalece, e ele, que sempre foi um homem forte, hoje em meio a um decisivo processo de declínio físico, não é capaz de encontrar qualquer tipo de motivação e nem o futebol é capaz de mantê-lo entretido.
É como se a nossa relação com a consciência e com o pensamento nos fizesse acometer da "síndrome de Estocolmo", que acaba por nos ligar afetivamente ao nosso próprio cativeiro, transformado em derradeiro companheiro de viagem, uma vez que todo o resto desistiu de tentar seguir nossa melodia, arrítmica e atonal. Aquilo que foi, num tempo passado, o lastre dos vôos mais arriscados acaba por se transformar em nosso único nexo, vital e essencial.
Possivelmente, aqueles que nos legaram seus genes, que aceitamos resignados e impotentes, buscavam garantir-nos a comodidade do pré-estabelecido, do programado. Contudo, ao mesmo tempo, com maior ou menor consciência, acabam por burlar suas cósmicas atribuições e insinuam-nos a existência das imperceptíveis cisões que nos permitirão reescrever nossa história.
Um dia descobri que não só podia encontrar esses verdadeiros mapas da ilha perdida com tesouros enterrados, escondidos entre os retorcidos caminhos das minhas relações ancentrais, mas também na inconsistente e frágil sabedoria da minha descendência.
As metamorfoses a que a vida nos submete doem um bocado, contudo são um forte indício de que não somos um mero resultado de equações genéticas. Além disso, permitem certificar que somos capazes de tomar os caminhos mais surpreendentes e imprevisíveis, provável causa maior da emoção de viver, e paradoxalmente, a origem da agonia que nos provoca descobrir que tudo o que fizemos ou decidimos podia ter sido distinto, que podia ter-nos feito viver outra vida em lugar da que vivemos. Não se trata de começar a ser místico de repente ou atribuir ao destino o que não lhe é atribuível, mas de considerar o que é de verdade, conseqüência do livre alvedrio.
Como a decisão de ter outro filho, passados sete anos do nascimento do primeiro e como isso pode vir a ser determinante nas vidas deles e nas nossas. Ou como, cerca de uma década depois, nosso filho mais velho decide deixar nossa casa, afastando-se de toda possibilidade de seguir de perto as descobertas que o irmão tinha ainda por viver.
Visto daqui, desde o futuro, é fácil adivinhar o quanto cada um de nós teve a ver com essa decisão. Ele próprio, um convicto foragido das inconveniências, obcecado por uma alegria quase ditatorial que, mesmo sob epidermes regeneradas, costuma deixar as feridas abertas. Ou nós que, muito provavelmente, rejeitamos a enorme vantagem que a maior experiência nos proporcionava, inertes num mesmo patamar, desde onde ajudamos a reforçar um muro que insistíamos em golpear inutilmente, cada um desde seu lado. Intransigentes, negamo-nos a comprar a passagem de volta ao Brasil, bloqueando nossos já bastante contaminados canais de comunicação e permitindo que se abrissem outros, indesejáveis sobretudo naqueles momentos difíceis de discussões e confrontos.
Disso se valeu uma vez mais a matriarca dos Mata, especialista da rapinagem familiar. Armada do talão mais rápido do oeste não hesitou em apontar com seus cheques de alto calibre ao próprio neto, fazendo-o levitar, perseguindo o aroma do papel moeda, feito personagem de desenho animado. É possível que mesmo sem a ajuda da avó, o rapaz atordoado e sem rumo tivesse encontrado a forma de se afastar dos que naquele momento, representavam a necessidade de assumir responsabilidades, tão transcendentais como eminentes, mas sem dúvida aquela ponte elevadiça a Xanadú foi resolutiva ou ao menos, permitiu-lhe economizar uma complicada decisão.
Talvez, o passo dos anos pudessem ter corrigido rumos e compatibilizado gênios, algo que possivelmente nunca chegaremos a saber com certeza, tendo que nos conformar com os indícios. Se, então, a considerável diferença de idade não favoreceu a maior proximidade ou se o mais velho sentiu seu protagonismo ameaçado pela chegada do irmão, essas diferenças foram-se diluindo e eles, aproximando-se, apesar da distância de dez mil quilômetros. Sinto que não fomos capazes de protegê-los de mais essa desastrosa intervenção dos Mata. A mais dramática, que marcou o signo definitivo das nossas relações. Tampouco eu pude. Confesso que só o tempo permitiu recuperar-me do enorme impacto desse cruzado que me fez arquear, dobrar os joelhos e me manteve à beira do nocaute. Cheguei a agradecer o suposto presente de aniversário dado ao neto, a maçã envenenada que lhe roubou um futuro junto aos pais e ao irmão. Nossos destinos mudaram depois daquele dia. Nossas relações, também, algumas degradando-se até a completa extinção, enquanto outra saíram reforçadas, pela escassez. De fato, uma das maiores emoções que já vivi, e não foram poucas, foi o reencontro dos meus dois filhos depois de três anos. O mais velho veio passar o Natal conosco, sem avisar e fomos ao colégio do caçula que, nesses anos, tinha crescido muito, longe da vista do irmão e, agora era o mais alto dos dois. Quando se encontraram, atiraram-se literalmente, um em direção ao outro e fundiram-se num abraço impossível de apagar da memória e nele permaneceram durante muito tempo, chorando. Eu chorei. O velho bedel da escola, não se conteve e dissimulando sob um desajeitado sorriso, chorou. Emocionante e difícil de esquecer. Nem quero. Como tampouco quero esquecer quem fui, o que fiz, por que estou certo de que por muito que aparentemente tenha mudado, sigo caminhos que escolho graças aos critérios e seguindo as lições que um dia recebi da minha mãe, "la mamá", a verdadeira fundadora da saga.
Recentemente, cumpriram-se dez anos sem ela. Faz muita falta, aos filhos e aos netos. Foi-se com a capacidade física bastante limitada, mas intelectualmente ainda muito forte, já que dedicou boa parte do seu tempo à leitura, ao cinema e à música, não necessariamente aquela que se lhe atribuiria. Gostava das novidades, mas era seletiva. Tinha amigos jovens e muito poucos da sua idade. Em sua última lição, à distância, demonstrou-me como é possível amar sem pedir nada em troca, transformando-se na nossa principal incentivadora, apoiando os nossos projetos para que perseverássemos e nunca desanimássemos, mesmo que às custas do seu próprio sacrifício de não poder ter-nos tão próximos como ela desejaria. Tinha uma minoritária forma de ser honrada, mas destacava principalmente, sua coragem que nunca ostentava, mas que desembainhava e brandia ferozmente, nos momentos mais críticos. Insisto que era ainda muito cedo e que ela podia ainda viver muito, mas me pergunto até que ponto vale a pena viver de forma tão limitada.
Já meu pai, preferiu obviar totalmente a atividade intelectual e o mais perto que chegou da cultura foi durante as transmissões esportivas através da televisão. A atividade mental é equivalente à ginástica que dói ao mesmo tempo que fortalece, e ele, que sempre foi um homem forte, hoje em meio a um decisivo processo de declínio físico, não é capaz de encontrar qualquer tipo de motivação e nem o futebol é capaz de mantê-lo entretido.
É como se a nossa relação com a consciência e com o pensamento nos fizesse acometer da "síndrome de Estocolmo", que acaba por nos ligar afetivamente ao nosso próprio cativeiro, transformado em derradeiro companheiro de viagem, uma vez que todo o resto desistiu de tentar seguir nossa melodia, arrítmica e atonal. Aquilo que foi, num tempo passado, o lastre dos vôos mais arriscados acaba por se transformar em nosso único nexo, vital e essencial.
Possivelmente, aqueles que nos legaram seus genes, que aceitamos resignados e impotentes, buscavam garantir-nos a comodidade do pré-estabelecido, do programado. Contudo, ao mesmo tempo, com maior ou menor consciência, acabam por burlar suas cósmicas atribuições e insinuam-nos a existência das imperceptíveis cisões que nos permitirão reescrever nossa história.
Um dia descobri que não só podia encontrar esses verdadeiros mapas da ilha perdida com tesouros enterrados, escondidos entre os retorcidos caminhos das minhas relações ancentrais, mas também na inconsistente e frágil sabedoria da minha descendência.
No hay comentarios:
Publicar un comentario