Não que eu pretenda ter minha capacidade premonitória reconhecida a esta altura, mas acredite quem quiser, sempre soube que uma distância prudente dos Mata era a única chance de sobrevivência. Por isso, sempre me empenhei em que o nosso contato fosse acidental. Que nos separassem, ao menos, quatrocentos quilômetros. Como inconveniente que, durante muito tempo, sempre fomos o destino favorito das excursões deles. Os sacoleiros da 25 de Março, a cunhada caçula durante os três meses de férias escolares, o cunhado que queria ser "sordado", a sogra farta do sogro ou o sogro farto da sogra.
Eram épocas de vacas magras para todos, mas em que, podendo ainda enxergar toda a vida pela frente, mantinhamo-nos dóceis no trato ou, dependendo do ponto de vista, um pouco idiotizados. Mesmo assim, posso garantir que a eventualidade remediava uma convivência natimorta. Os anos tratariam de tirar minhas remotas dúvidas e um ano de convívio, morando na mesma cidade, de deixar seqüelas definitivas. Antes disso, e com hercúleo esforço, fui capaz de preservar a distância, mantendo-os durante anos na minha sala de visitas ou, como muito, no quarto de hóspedes. Quando conseguiram invadir a cozinha e, definitivamente, a intimidade do nosso quarto, os estilhaços chegaram a salpicar a milhares de quilômetros. Nada ficou inteiro, nem a minha relação com os Mata e por pouco, o relacionamento com a única Mata que eu prefiro manter próxima, a menos de quatrocentos quilômetros, a menos de um metro ou, se possível, a uma distância que não deixe o ar circular.
Durante os anos de prudência e eventualidade, eu fui o parente exótico, teimoso e modernoso, que assombrava a forma tão cômoda de viver de uma sociedade consolidada no imutável. Em contrapartida, representava também a ponta de status necessária para alcançar certa notoriedade na cidade dos Mata, marcada pelo ranço da inveja travestida de cordialidade. Parece paradoxal, mas é assim que funciona. Uma experiência similar à de sentir-se como um modelito novo desenhado para a próxima temporada, incerto de se é elegante ou ridículo, que passa pelo espelho sem convencer e desfila ciente de que pelo menos é capaz de chamar a atenção e de chocar. O certo é que sua combinação com as peças de estilo conservador tende a ser desastrosa.
Bem, mas voltemos ao chapéu exótico em que me vi convertido durante anos. Para o círculo dos Mata, eu era o genro de São Paulo ou da Espanha. Permanente e suficientemente distante para ser misterioso, intocável, diferente, quase divino. Como ter uma pedra no sapato e garantir que é um diamante. Talvez uma ametista. Demasiado distante, contudo, para ser manipulado. Quem sabe não exatamente pela segurança que a distância permitia, mas por ela nos garantir certa autonomia. Sim, porque morar na cidade dos Mata é como jogar no campo do adversário, com regras novas, um juiz pouco neutro e condições climáticas adversas. Não para quem padece do mal do "voyeur social" como eu, mas pela necessidade obsessiva dos Mata em ter as pessoas sob seu absoluto controle e poder decidir seu destino. Como disse em ocasiões anteriores imagino seja esse o conceito de ajuda dos Mata, mas também é assim que se justificam tantos outros grupos do planeta que se dedicam a decidir o destino alheio e, para isso se unem, primeiro em grupos familiares, que evoluem a grupos de famílias nem sempre legais, chegam a formar partidos políticos em sistemas multipartidários que acabam por transformar em sistemas bipartidários e, por fim, em absolutistas.
Eram épocas de vacas magras para todos, mas em que, podendo ainda enxergar toda a vida pela frente, mantinhamo-nos dóceis no trato ou, dependendo do ponto de vista, um pouco idiotizados. Mesmo assim, posso garantir que a eventualidade remediava uma convivência natimorta. Os anos tratariam de tirar minhas remotas dúvidas e um ano de convívio, morando na mesma cidade, de deixar seqüelas definitivas. Antes disso, e com hercúleo esforço, fui capaz de preservar a distância, mantendo-os durante anos na minha sala de visitas ou, como muito, no quarto de hóspedes. Quando conseguiram invadir a cozinha e, definitivamente, a intimidade do nosso quarto, os estilhaços chegaram a salpicar a milhares de quilômetros. Nada ficou inteiro, nem a minha relação com os Mata e por pouco, o relacionamento com a única Mata que eu prefiro manter próxima, a menos de quatrocentos quilômetros, a menos de um metro ou, se possível, a uma distância que não deixe o ar circular.
Durante os anos de prudência e eventualidade, eu fui o parente exótico, teimoso e modernoso, que assombrava a forma tão cômoda de viver de uma sociedade consolidada no imutável. Em contrapartida, representava também a ponta de status necessária para alcançar certa notoriedade na cidade dos Mata, marcada pelo ranço da inveja travestida de cordialidade. Parece paradoxal, mas é assim que funciona. Uma experiência similar à de sentir-se como um modelito novo desenhado para a próxima temporada, incerto de se é elegante ou ridículo, que passa pelo espelho sem convencer e desfila ciente de que pelo menos é capaz de chamar a atenção e de chocar. O certo é que sua combinação com as peças de estilo conservador tende a ser desastrosa.
Bem, mas voltemos ao chapéu exótico em que me vi convertido durante anos. Para o círculo dos Mata, eu era o genro de São Paulo ou da Espanha. Permanente e suficientemente distante para ser misterioso, intocável, diferente, quase divino. Como ter uma pedra no sapato e garantir que é um diamante. Talvez uma ametista. Demasiado distante, contudo, para ser manipulado. Quem sabe não exatamente pela segurança que a distância permitia, mas por ela nos garantir certa autonomia. Sim, porque morar na cidade dos Mata é como jogar no campo do adversário, com regras novas, um juiz pouco neutro e condições climáticas adversas. Não para quem padece do mal do "voyeur social" como eu, mas pela necessidade obsessiva dos Mata em ter as pessoas sob seu absoluto controle e poder decidir seu destino. Como disse em ocasiões anteriores imagino seja esse o conceito de ajuda dos Mata, mas também é assim que se justificam tantos outros grupos do planeta que se dedicam a decidir o destino alheio e, para isso se unem, primeiro em grupos familiares, que evoluem a grupos de famílias nem sempre legais, chegam a formar partidos políticos em sistemas multipartidários que acabam por transformar em sistemas bipartidários e, por fim, em absolutistas.
No hay comentarios:
Publicar un comentario