martes, 17 de marzo de 2009

"Meu genro de São Paulo, meu genro da Espanha"

Não que eu pretenda ter minha capacidade premonitória reconhecida a esta altura, mas acredite quem quiser, sempre soube que uma distância prudente dos Mata era a única chance de sobrevivência. Por isso, sempre me empenhei em que o nosso contato fosse acidental. Que nos separassem, ao menos, quatrocentos quilômetros. Como inconveniente que, durante muito tempo, sempre fomos o destino favorito das excursões deles. Os sacoleiros da 25 de Março, a cunhada caçula durante os três meses de férias escolares, o cunhado que queria ser "sordado", a sogra farta do sogro ou o sogro farto da sogra.

Eram épocas de vacas magras para todos, mas em que, podendo ainda enxergar toda a vida pela frente, mantinhamo-nos dóceis no trato ou, dependendo do ponto de vista, um pouco idiotizados. Mesmo assim, posso garantir que a eventualidade remediava uma convivência natimorta. Os anos tratariam de tirar minhas remotas dúvidas e um ano de convívio, morando na mesma cidade, de deixar seqüelas definitivas. Antes disso, e com hercúleo esforço, fui capaz de preservar a distância, mantendo-os durante anos na minha sala de visitas ou, como muito, no quarto de hóspedes. Quando conseguiram invadir a cozinha e, definitivamente, a intimidade do nosso quarto, os estilhaços chegaram a salpicar a milhares de quilômetros. Nada ficou inteiro, nem a minha relação com os Mata e por pouco, o relacionamento com a única Mata que eu prefiro manter próxima, a menos de quatrocentos quilômetros, a menos de um metro ou, se possível, a uma distância que não deixe o ar circular.

Durante os anos de prudência e eventualidade, eu fui o parente exótico, teimoso e modernoso, que assombrava a forma tão cômoda de viver de uma sociedade consolidada no imutável. Em contrapartida, representava também a ponta de status necessária para alcançar certa notoriedade na cidade dos Mata, marcada pelo ranço da inveja travestida de cordialidade. Parece paradoxal, mas é assim que funciona. Uma experiência similar à de sentir-se como um modelito novo desenhado para a próxima temporada, incerto de se é elegante ou ridículo, que passa pelo espelho sem convencer e desfila ciente de que pelo menos é capaz de chamar a atenção e de chocar. O certo é que sua combinação com as peças de estilo conservador tende a ser desastrosa.

Bem, mas voltemos ao chapéu exótico em que me vi convertido durante anos. Para o círculo dos Mata, eu era o genro de São Paulo ou da Espanha. Permanente e suficientemente distante para ser misterioso, intocável, diferente, quase divino. Como ter uma pedra no sapato e garantir que é um diamante. Talvez uma ametista. Demasiado distante, contudo, para ser manipulado. Quem sabe não exatamente pela segurança que a distância permitia, mas por ela nos garantir certa autonomia. Sim, porque morar na cidade dos Mata é como jogar no campo do adversário, com regras novas, um juiz pouco neutro e condições climáticas adversas. Não para quem padece do mal do "voyeur social" como eu, mas pela necessidade obsessiva dos Mata em ter as pessoas sob seu absoluto controle e poder decidir seu destino. Como disse em ocasiões anteriores imagino seja esse o conceito de ajuda dos Mata, mas também é assim que se justificam tantos outros grupos do planeta que se dedicam a decidir o destino alheio e, para isso se unem, primeiro em grupos familiares, que evoluem a grupos de famílias nem sempre legais, chegam a formar partidos políticos em sistemas multipartidários que acabam por transformar em sistemas bipartidários e, por fim, em absolutistas.

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